29 maio, 2009

ATENÇÃO AO SÁBADO


Blumenau, em julho passado


Acho que sábado é a rosa da semana; sábado de tarde a casa é feita de cortinas ao vento, e alguém despeja um balde de água no terraço; sábado ao vento é a rosa da semana; sábado de manhã, a abelha no quintal, e o vento: uma picada, o rosto inchado, sangue e mel, aguilhão em mim perdido: outras abelhas farejarão e no outro sábado de manhã vou ver se o quintal vai estar cheio de abelhas. No sábado é que as formigas subiam pela pedra. Foi num sábado que vi um homem sentado na sombra da calçada comendo de uma cuia de carne-seca e pirão; nós já tínhamos tomado banho. De tarde a campainha inaugurava ao vento a matinê de cinema: ao vento sábado era a rosa de nossa semana. Se chovia só eu sabia que era sábado; uma rosa molhada, não é? No Rio de Janeiro, quando se pensa que a semana vai morrer, com grande esforço metálico a semana se abre em rosa: o carro freia de súbito e, antes do vento espantado poder recomeçar, vejo que é sábado de tarde. Tem sido sábado, mas já não me perguntam mais. Mas já peguei as minhas coisas e fui para domingo de manhã. Domingo de manhã também é a rosa da semana. Não é propriamente rosa que eu quero dizer.

Clarice Lispector, in "Para não esquecer" - 5ª ed. - Siciliano - São Paulo, 1992
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26 maio, 2009

a distância entre 2 caminhos





Hoje à noite corremos pela cidade espalhando as boas novas:

a distância...
à distância...
você sabe qual a distância entre dois caminhos
?

Pelos becos, vielas, ruas e botecos emergem outras vozes que não dizem nada
porque os olhos já não sentem nada
e o coração mal serve pra bombear o sangue
pelo corpo cansado de guerra

à distância
observamos o mundo com nossos ritos e mitos
preparando uma invasão mais silenciosa que um furacão
num dia terno de primavera

Vamos colher flores e bombardear os tiranos com afagos e carinhos
é disso que o mundo precisa
o mundo que existe dentro de cada um
vamos diminuir as distâncias, encurtar passos e opções

Como bem disse Ziemermman, as respostas foram levadas pelo vento
E nós, poetas de ações e dramas e atos cômicos
construimos barcos, içamos velas e encurtamos distâncias

O que nos separa entre um ponto e outro

é o que também nos une.



wallace puosso

sobre processo de trabalho do novo espetáculo do Cubo Mágico



22 maio, 2009



paisagem um ponto zero


Paisagem um ponto zero.
Começa assim: com uma partida. Mais ou menos como se o fim fosse o início. Ou vice-versa.
O jardim da casa perdura o mato crescido entre as flores da estação. A fachada ainda guarda partes da memória de um outro tempo.
Seqüência em preto e branco.
A câmera se aproxima do interior. Vazio. De possibilidades reais, de palavras que nem mais guardam eco.
Houve um certo verão de promessas e poesias e músicas e olhares ternos.
As taças ainda repousam sobre a mesa de centro.
Corte para imagens vagas. A memória é como um ciclo vago e impreciso de imagens e sensações que são editadas e sobrepostas conforme nosso humor varia.
Aimee Mann ainda canta com sua voz macia coisas sobre as quais só meninas podem cantar. Ela e sua guitarra.
Engraçado, ele sempre teve um certo fetiche por mulheres que tocam guitarra ou são imponentes com suas botas de cano alto ou usam batom carmim só pra provocar.
Já não há olhos pra se olhar e tentar desvendar o que vai na alma. A janela entreaberta garante uma nova visão de mundo. Embora seja domingo e as ruas adormeçam à espera de outra semana.
Houve um tempo em que famílias sentavam juntas à mesa no domingo e esse era um momento sagrado.
Outra seqüência relembra que coisas sagradas nunca foram seu forte.
Na verdade não se pode salvar algo em que nunca se esteve por completo.
Almoços em família, riffs de guitarra, leituras de Virgínia Wolf, vinhos chilenos, amigos possíveis e amores quase. Tudo mais ou menos pela metade.
Sua passagem é assim. Paisagem um ponto zero.
E ele segue na esperança de que a vida lhe possibilite um upgrade.



wallace puosso, maio de 2009
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PARA OUVIR JUNTO: Aimee Mann - Save me e/ou Aimee Mann - Deathly
PARA ASSISTIR: Magnólia (EUA, 1999)
ACOMPANHANDO: Casillero del Diablo Merlot (safra 2006)
OUÇA NO VOLUME MÁXIMO, AME COMO SE FOSSE A ÚLTIMA COISA.
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20 maio, 2009

como cinema


No meio daquele filme de ação, ele se deu conta que a vida - muitas vezes - não passa de encenação.


wallace puosso, maio 2009
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18 maio, 2009




Quimera


ingredientes


a arte para dourar,
amor verdadeiro,
abraços por inteiro
bolas de sabão,
cantigas de roda,
fantasia,
utopia,
o colorido dos dias


modo de preparar


misture sonhos agradáveis com porções de bolas de sabão e cantigas de roda, um tablete e meio de fantasia e desejo intenso de alcançar algo. Mexa tudo, misture bem e não esqueça da utopia. Junte a isso três medidas e meia de amor verdadeiro e duas colheres de abraços por inteiro. Acrescente também um lar, um filho, uma família e leve ao fogo brando das paixões diárias.
Sirva o colorido dos dias polvilhado com atenção e ludicidade.




wallace puosso, maio 2009

16 maio, 2009




longo regresso noite adentro


somos quase mitos
figuras bergnianas
de uma história a ser contada
partindo, voltando
(regresso ao que somos)
nosso íntimo distante
entoando antigas canções
sensação de eco incontido
tímido passo para o infinito
ínfimo sentido
o corpo corre à deriva
dança conforme o fogo
a luz é o ícone do prazer
(processo do que somos)
primitivos no amor
parte do que somos, amor
linguagem muda do inconsciente


wallace puosso, maio 2009

14 maio, 2009



Em meio à trincheira fria e sob a blitzkrieg, ele só pensava num chuveiro quente, na cama quente e uma mulher ao lado.
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wallace puosso

11 maio, 2009

quase um segundo


quase um segundo


Eu queria ver no escuro do mundo
Onde está tudo o que você quer
Pra me transformar no que te agrada
No que me faça ver
Quais são as cores e as coisas
Pra te prender?
Eu tive um sonho ruim e acordei chorando
Por isso eu te liguei
Será que você ainda pensa em mim?
Será que você ainda pensa?

Às vezes te odeio por quase um segundo
Depois te amo mais
Teus pêlos, teu gosto, teu rosto, tudo
Que não me deixa em paz
Quais são as cores e as coisas
Pra te prender?

Eu tive um sonho ruim e acordei chorando
Por isso eu te liguei
Será que você ainda pensa em mim?
Será que você ainda pensa?

Às vezes te odeio por quase um segundo
Depois te amo mais
Teus pêlos, teu gosto, teu rosto, tudo
Que não me deixa em paz
Quais são as cores e as coisas
Pra te prender?

Eu tive um sonho ruim e acordei chorando
Por isso eu te liguei
Será que você ainda pensa em mim?
Será que você ainda pensa?


Os Paralamas do Sucesso

08 maio, 2009




VICK

Definitivamente não falamos a mesma língua.
Mas seu sorriso completa frases soltas
meu vocabulário amplia cada vez que me olha.
Estamos numa terra estranha, inexplorada
e por isso o mapa: olfato, tato, gosto
Buscamos outros sentidos.
Eu fecho os olhos e você me ama numa língua estranha
Que meu corpo reconhece bem.


wallace puosso, maio de 2009
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03 maio, 2009





Acabei de assistir CONTROL. Já tinha ouvido falar, pois foi um dos destaque da Mostra de Cinema de SP em 2007. Descobri que a direção do filme é o début do renomado fotógrafo Anton Corbijn no cinema. Ele que já fez ensaios antológicos de bandas como U2 ( The Joshua Tree), REM, David Bowie e Depeche Mode.

O filme conta a história da vida conturbada de Ian Curtis, líder genial do Joy Division (que depois viria a se transformar em New Order, mas aí é outra coisa) a banda que definitivamente transformou a cara do punk na virada dos anos 70 para os 80. Mas a banda teve vida curta. Ian Curtis se matou em 1980, aos 23 anos, um dia antes da viagem que marcaria o início da primeira turnê americana.

O filme me instigou a ouvir novamente a banda e, pra quem não conhece, "Closer", lançado após a morte de Ian Curtis, é um dos grandes discos da história do rock e merece ser ouvido com atenção. Estão lá as influências de David Bowie, Iggy Pop, Velvet Underground. Existe um certo mito em torno desse disco, pelo fato de algumas letras serem um tanto quanto impressionantes quando se sabe do fim trágico do vocalista ("Essa era a crise que eu sabia que viria/Destruindo a estabilidade que eu mantinha" de Passover ou "Mãe eu tentei, acredite/Estou fazendo o melhor que eu posso" de Isolation).